Acho que fui seduzida pelo poder que há nestas palavras, que se não lidas, existem como se nunca tivessem existido, e pela beleza que há ainda, quando estas coexistem com o silêncio.
Mas o que realmente fascina, transcende, são as asas de Ícaro de que me revisto quando a tinta enegrece o papel e o distingue de todos os outros. Porque também não sou mais a mesma ao dizê-las, e então o casulo se desfaz para a construção de tantos outros.
São destes diminutos espaços em que vôo é que provém a força necessária para que nenhuma amarra seja suficientemente forte para me impedir de voar novamente, de bater as asas por alguns breves instantes. Porque sempre haverão casulos rompidos na tinta que escreve e no papel que docilmente a acolhe, e recebe com tanto aconchego esses gritos grafados a duras penas.
Assim como meus pés deixam suas pegadas, indicando o caminho por onde passei que essas mal traçadas linhas denunciem o percurso de estradas tortuosas que conduzem às vielas dessa alma de asas atrofiadas, mas, que nunca perdeu a vontade de voar, ainda que seja sustentada por asas de papel.
Um dia me disseram que me ler é como estar diante de um abismo... e eu completo: quando se está diante de um abismo só há duas alternativas ou você pula ou você aprende a voar!
domingo, 23 de maio de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
A menina por trás dos óculos.
Sonolenta a mulher acorda, estende a mão ao criado mudo,
os óculos lhe pesam ao rosto.
A menina regateia na cama, levanta, sorri para o espelho,
se acomoda confortavelmente atrás dos óculos.
A mulher anda apressadamente, engole o café,
sobe no salto, como que querendo desesperadamente crescer.
A menina saltita com os pés descalços, depois os recolhe confortavelmente a um chinelinho de borracha.
A mulher espera o ônibus, tropeça, esbraveja, maldiz a sorte.
A menina pede perdão.
A mulher tão imersa em seus vazios.
A menina com o coração tão cheio de sonhos.
A mulher não sorri muito, a menina também não.
A mulher tão cansada, tão sem para quê da existência.
Já não tem mais paciência, porque a menina só quer brincar,
brincadeira de ser feliz.
A mulher quer entender.
A menina tão cheia de perguntas que se respondem com meias verdades.
Por fora a mulher.
A mulher só caminha.
A mulher caminha só.
A menina só quer voltar, ir finalmente para casa.
A menina por trás das lentes dos óculos de aros metálicos.
E a mulher que vê através delas.
os óculos lhe pesam ao rosto.
A menina regateia na cama, levanta, sorri para o espelho,
se acomoda confortavelmente atrás dos óculos.
A mulher anda apressadamente, engole o café,
sobe no salto, como que querendo desesperadamente crescer.
A menina saltita com os pés descalços, depois os recolhe confortavelmente a um chinelinho de borracha.
A mulher espera o ônibus, tropeça, esbraveja, maldiz a sorte.
A menina pede perdão.
A mulher tão imersa em seus vazios.
A menina com o coração tão cheio de sonhos.
A mulher não sorri muito, a menina também não.
A mulher tão cansada, tão sem para quê da existência.
Já não tem mais paciência, porque a menina só quer brincar,
brincadeira de ser feliz.
A mulher quer entender.
A menina tão cheia de perguntas que se respondem com meias verdades.
Por fora a mulher.
A mulher só caminha.
A mulher caminha só.
A menina só quer voltar, ir finalmente para casa.
A menina por trás das lentes dos óculos de aros metálicos.
E a mulher que vê através delas.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Conclusões
Não estou bem certa se sou parte dessa interrogação gigante ou se essa é quem faz parte de quem eu ilimitadamente sou. Meus pés ainda estão procurando o ritmo para caminhar, eles fatalmente não possuem a capacidade de alcançar a velocidade com que meu pensamento viaja a tantos e diferentes lugares. As possibilidades são tão infinitas e meus limites tão diminutos. Essa infinidade de porquês, e essa certeza de que nada é impreterivelmente certo a menos que você acredite realmente. Não sou um turista nesse mundo, um observador sem dúvida, e ainda me impressiono e creio que poucas coisas ainda me comoverão como a capacidade que temos, apesar de toda fragilidade, de fazer brotar as mais lindas flores nos campos áridos da dor. Se tivesse um único desejo para toda uma vida, seria convictamente que tudo parasse de doer, assim, tanto como dói, mas ainda me curvo ao sacrário de cada dor, por que sei que é esse o único momento em que tudo faz sentido, mesmo na contramão de todas as coisas. Só há divindade na alma humana quando a dor é convidada e tem lugar na mesa de jantar, afinal, um belo dia ela resolve que é tempo de partir e partilhar com outras pessoas a oportunidade de crescer.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Caminhante

Não temo o tempo, a menos que ele não passe. Tudo que se eterniza me apavora. Na verdade, não me causa angústia que o correr dos dias corte o meu rosto a fios de navalha e lhe confira outras feições, nem tão róseas, nem tão admiráveis. Me aterroriza tão mais o esvaziamento das ausências, a persistente inexistencia de qualquer espectro do espírito.
Qual é a graça de se criar charadas que tendem a não ser entendidas? O esmero e a dedicação do artista ecoam no vazio quando não se aprecia a beleza que há em suas palavras. O mesmo ocorre quando reflexo fala mais alto, perder sem a encantadora observãncia de tudo quanto se ganhou nas paragens do caminho. Me castra a esperança compreender que tantos caminhante têm os olhos cerrados e que nunca irão ver que o horizonte não se finita, esteja em que ponto do caminho estiver, mas depois de algumas longas passadas se deixa de tentar alcançá-lo, pois nem toda verdade se encontra naquilo que se vê.
Estamos na era das impressões, tudo é sensacional, tudo lúdico antevendo a própria miséria, melhor seria nunca terem impermeabilizado a alma, talvez a borboleta não seja forte o suficiente para sair deste cazulo. Isto realmente seria cômico se não fosse a narração da tragédia humana.
Ah! Essa humanidade encantadoramente dotada de um infinito de possibilidades emergentes de suas sacras lilmitações. Havia de ser a mais bela das criações não fosse a vã ingenuidade de tornar eterno tudo que se esvai, ao passo que conota de efemeridade o pouco que nunca se acaba.
De certo que não acorda um dia e simplismente se apercebe deste paradoxo, mas também não se vive toda uma vida num único instante. Há que se resignar frente a infinidade de tardes debruçadas em janelas, às penumbras das madrugadas e esses infinitos solilóquios que não se esquivaram das belas, enigmáticas, e porque não dizer dolorosas temáticas. O escárnio é parte do processo, um dos tantos que ora preconizam um recomeço, ora anunciam que é tempo de parar.
É uma caminhada que se faz só, por estrada de solo arenoso, árido, instável demais aos olhos dos viajantes que estão aqui à passeio, passagem vazia, sem sentido pede estrada se declives, de planícies retilíneas, próprias de quem não tem o hábito de olhar para baixo ou para os lados e quer enxergar apenas o horizonte desconsiderando infantilmente a distância que os separa.
São silenciosos e diminutos os passos que nos guiam para algum sentido, e não têm outro destino, senão para o outro e para o que somos, para dentro de nós mesmos, origem e fim de todas as coisas.
Afogar-se num cálice de sicuta é tarefa de certeza, típica das convicções de quem não proferiu uma só resposta, mas, fez as perguntas certas e lançou-as ao vento para que pudessem voar.
segunda-feira, 12 de abril de 2010

Que medo é esse que vive a fisgar meu calcanhar?
Que medo é esse que amarra minhas mãos?
Que medo é esse destes versos tortos?
De que espécie de ilusão estou querendo me revestir?
Fujo do limite que me detém?
Ou me detenho nas entranhas dos meus limites?
Onde vai parar esse jogo de corpo?
Essa involuntariedade, que compele,
avança e retrocede.
É uma parte do oceano,
num buraquinho na praia.
E quanto medo há nisso meu Deus!
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